mais uma licença literária: o estranho caso do cachorro morto

Dia desses iniciei uma busca por obras que me pudessem ajudar a trilhar meu próprio caminho e formar minha própria opinião sobre a polêmica questão da caracterização de uma obra literária: quando é que um texto deixa de ter interesse pessoal apenas para ter interesse coletivo? Curiosamente, descobri que o entorno das obras classificadas em linguística cobrem numa ponta inúmeros títulos entre manuais de redação e noutra obras filosóficas em semiótica; mas que o meio entre uma coisa e outra é terreno relativamente pouco explorado – ao menos do ponto de vista de obras publicadas.

Seja como for, foi por conta de uma discussão acalorada com um aluno do 4o. ano de linguística numa das livrarias que freqüento na cidade, que vim a me interessar pelo estranho caso do cachorro morto. O livro é um belíssimo romance sobre um garoto autista, Christopher Boone, que escreve um livro de memórias iniciadas a partir de um relato de suas investigações acerca do cachorro encontrado morto no jardim de uma casa vizinha. Brilhante e muito hábil no terreno da matemática e lógica, o menino tem uma limitada capacidade de lidar com pessoas e emoções. O livro, do muitas vezes premiado autor Mark Haddon, tem uma narrativa envolvente, engenhosa, e mexe fundo com o leitor, ao colocá-lo para ver o mundo através dos olhos e da mente de um autista. Deste ponto de vista, é um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Para não falar sobre a marcação de capítulos, numerados conforme a sequência de números primos! <3

Próximo na lista: Rayuela, de Julio Cortazar. Vejamos o que a experiência de um jogo de amarelinha tem para seduzir o leitor… 🙂

Serviço: para quem se interessar pela obra original, o título é: The Curious Incident of the Dog in the Night-Time; Autor: Mark Haddon (britânico); Publicação: 2003; Premiação: Melhor Primeiro Livro, Melhor Romance e Livro do Ano.

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licença literária: Entre Tesouros e Delitos

Introspectivo por natureza, dedicou parte significativa de seu tempo a observar os devaneios do mundo. Nunca se permitiu muito viver o frenesi da vida urbana, da qual admirava mesmo era a vista para o mar. Aprendeu logo a contemplar as coisas além do sabor: do bom café o aroma, da combinação de temperos o caleidoscópio de cores, da intrincada frase ornamentada ao piano a dramaticidade latente das sonatas de Mozart.

Na repartição, era tido em alta conta por quase todos. Homem de poucas embora gentis palavras fez-se notável por sua conduta ética impecável e assertividade na condução de suas atribuições. Desde os primórdios de sua carreira – iniciada naquele mesmo modesto escritório da Procuradoria Pública – muitas coisas haviam mudado na agitada capital da República. Mas ele nunca abriu mão de sentar-se no corredor, de frente para a pequena janela de cujas frestas, ao longe, seus olhos por vezes repousavam sobre o contorno longilíneo do mar.

Nos últimos tempos, dividia seus dias entre o registro de memórias de casos passados e longas conversas despretensiosas com os recém-chegados, para quem ele representava um ícone de famosas atuações. Havia passado seus anos tratando de alguns tipos específicos de casos. Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários. Sobre os leiloeiros dizia não confiar em pessoas cuja idoneidade presumida se fazia avalizar por evidências documentais apenas. “Excesso de senso de oportunidade faz mal à saúde moral”, advertia.

Já sobre os falsários, na cumplicidade de seu íntimo apenas, lançava mão de seu gosto particular pela contemplação. Embora implacável cumpridor de suas obrigações profissionais, se permitia o prazer de admirar a obra de arte, que é o produto de uma falsificação bem feita. A concentração que suporta o treino meticuloso, o capricho no traço, a discrição embutida no espírito de não chamar atenção desnecessariamente – atributos de inegável refinamento estético. Elementos que, para ele, faziam dos falsários experientes seres incomparáveis aos leiloeiros negociadores, meramente movidos pelos dígitos de suas comissões de vendas. “Verdadeiros talentos da arte da imitação… mal intencionados, é fato; mas ainda assim, artistas!”, dizia a si próprio, durante aqueles segundos de luta interna entre sentimentos conflitantes, do apreciador-procurador.

Aterrissado de volta ao caos urbano da República, o ruído seco do carimbo oficial na folha de rosto da petição uma vez mais oferecia denúncia formal a um falsário. Irremediavelmente comprometida estaria a criação de outras obras de comparável pretensa autenticidade pelas mãos daquele cidadão. Sentimento de missão cumprida. Mas com o olhar perdido por entre as frestas da janela, fantasiava que elas, as obras, se salvariam rumando para o orfanato dos tesouros ilegítimos. E se deixava escoltá-las mar adentro por entre as ondas inebriadas, misturadas às linhas de fumaça subindo pelas bordas de sua xícara de café. Mais um dia de trabalho.”

[texto de autoria de Sheila Maceira, originalmente submetido para o concurso literário da revista piauí, edição de junho de 2007, com o título Entre Tesouros e Delitos; frase desafio para encaixe: Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários]

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