sobre A Comédia Infernal e o poder da ópera

Histórias reais do crime podem não ser exatamente algo que gostaríamos de seguir lendo e ouvindo, mas inegavelmente algumas delas podem constituir matéria-prima de inegável riqueza para o teatro de ópera. Baseada na estória real de Jack Unterweger – o famoso assassino serial austríaco que matou dezenas de prostitutas em vários países – a peça “The Infernal Comedy” (A Comédia Infernal), com John Malkowich, tem feito grande sucesso com a crítica e com o público.
Condenado por homicídio, Unterweger veio a tornar-se poeta e romancista de grande expressão na prisão. Chegando a ter sua soltura antecipada por intervenção de críticos e intelectuais que o adoravam, uma vez fora, veio a tornar-se um jornalista de grande prestígio, por sua capacidade de compreender e retratar o mundo da luz vermelha. Reincidente no assassinato em série, acabou suicidando-se.
E é esta a estória que uma nova proposta no teatro de ópera se propõe a contar. No palco, um ator (o grande John Malkovich), dois sopranos, uma orquestra barroca. As vítimas são representadas pelos sopranos, com uma belíssima seleção de árias de óperas de Beethoven, Mozart, Haydn e Weber – além de música instrumental e melodramática extraída de Gluck e Boccherini:
Beethoven Cena e Ária ‘Ah, perfido’

Haydn Cena de Berenice ‘Berenice che fai?’
Mozart Recitativo, Ária e Cavatina ‘Ah, lo pervidi’
Weber Cena e Ária ‘Ah seed mundo fosse l’uccisor!’

Os monólogos interpretados por Malkovich, são de tempos em tempos durante a peça, ilustrados por músicas que reforçam as emoções narradas – alegria, ódio, amor, desejo – através das árias interpretadas pelos sopranos.
A Revista Gramophone deste mês publicou uma interessante entrevista com John Malkovich, sobre a peça mas antes sobre a experiência deste em tomar contato com a ópera e trilhar seus primeiros passos como ouvinte e apreciador da grande música.
Ouvindo as árias, dá para ter uma ideia da força dramática e papel fundamental que a música ocupa na narrativa. Para fechar, deixo uma recomendação para ‘Berenice che fai?’, na interpretação da majestosa mezzo-soprano italiana Cecilia Bartoli. Este video infelizmente não contempla a cena completa, mas o suficiente para ilustrar seu poder dramático. Enjoy!

chant d’amour

E por falar na Cecilia Bartoli… descobri esses dias um álbum dela que eu não conhecia. Um repertório baseado em canções francesas pouco executadas. É uma Cecilia com uma voz mais “escura” e bastante contida, mas perfeitamente adaptada para a interpretação de personagens diferentes. Gostei de todas as canções, mas da La mort d’Ophélie em particular. Achei que valia o post: boa pedida!

bravo cecilia!

dizer que cecilia bartoli é uma grande cantora é hoje em dia muito mais do que, em português padrão, dizer “chover no molhado”. ainda assim, me alegro em reafirmar o quanto me encanto com suas interpretações – das mais difíceis peças às mais delicadas e graciosas. estudando boas interpretações de trechos da ópera “Le Marriage de Figaro”, de Mozart, encontrei esta deliciosa e feliz interpretação para a arietta “Voi, que sapete que cosa é amor”:

vale ou não vale um entusiasmado “bravo”! 🙂