Chopin 205!

Nesta data 22 de fevereiro, no ano de 1810 – embora na incerteza da época há quem defenda que foi em 01 de março do mesmo ano – nascia nos arredores de Warsaw, na Polônia, o pianista e compositor Fryderyk Franciszek Chopin, que o mundo conhece por seu nome francês, Frédéric François Chopin. Um dos símbolos máximos do período da música conhecido por Romantismo, talentoso e extremamente reservado, em 18 anos de sua carreira na França, deu cerca de 30 concertos apenas em grandes salas – tímido, preferia o acolhedor ambiente do ambiente de câmara dos salões privados. Permanece um ídolo em sua pátria natal, de onde se mudou aos 21 anos por apoiar o ideal revolucionário contra a política da época, e dá nome ao aeroporto mais importante da Polônia até hoje.

E para celebrar o gênio em seu 205o. aniversário, deixo aqui um recorte do filme “À Noite Sonhamos” – do original em inglês “A Song to Remember“, de 1945 no olhar do diretor húngaro Károly Vidor, com 6 indicações ao Oscar e 1 estatueta ganha por Melhor Filme Estrangeiro. Neste recorte, Chopin chega com seu professor ao escritório do Sr. Pleyel, em Paris, 11 anos após uma correspondência trocada entre eles, onde o professor pedia espaço para apresentar seu aluno talentoso. O Sr. Pleyel logo mostra que não tem mais interesse em Chopin, até que na sala ao lado, ninguém menos do que Franz Liszt, em visita ao mesmo escritório e tendo encontrado uma partitura que considerou interessante aberta sobre o piano, começa a tocá-la a elogiá-la. Endosso feito, nasce uma amizade e a oportunidade de Chopin em Paris. Vale conferir!

Quem se importa!

Dando sequência à retomada de atividades nos meus blogs, chego aqui ao Les Amis para divulgar uma notícia bem interessante: estreia hoje em São Paulo e no próximo dia 20 no Rio, o longa Quem Se Importa, com direção de Mara Mourão. O filme teve sua premiere mundial em Harvard e já tem na agenda uma exibição especial na Universidade de Columbia e numa conferência em Paris.

O documentário é um manifesto com ambições educativas e através de entrevistas com grandes nomes do empreendedorismo social do planeta, destaca projetos de sucesso em vários países incluindo Brasil, Estados Unidos, Tanzânia, Suiça, Peru e outros.

Para quem não conhece ou não associou, Mara Mourão é a mesma de Doutores da Alegria, lançado em 2005. Em São Paulo, o filme está em cartaz nos espaços Reserva Cultural e Itaú Frei Caneca neste final de semana, e sua permanência na agenda destes cinemas depende do público que for gerado entre 13 e 15 de abril – portanto, fica o convite!

Além de assistir o filme, fica ainda a recomendação para explorar seu website que traz bastante conteúdo interessante, incluindo uma seção específica para escolas com guias para orientar o debate na exibição escolar, ficha dos empreendedores sociais com trechos de entrevistas e alguns sites bacanas sobre empreendedorismo social.

Ótima pedida para o fim de semana na capital. Vamos ao cinema? 🙂

de volta à sétima arte: l’occitanienne

Primeiro longa do diretor francês Jean Périssé, L’Occitanienne (ou le Dernier Amour de Chateaubriand, 2007) é uma bela homenagem ao famoso romance vivido pelo poeta francês René de Chateaubriand com a jovem Leontine de Villeneuve, 40 anos mais nova e com quem manteve intensa correspondência amorosa ao longo de dois anos. O filme ambientado num hotel nos Pirineus numa noite de tempestade, é baseado na autobiografia do escritor, e construído sobre diálogos contrastantes e, a seu modo, apaixonados. O que mais me impressionou na construção da linguagem foi a qualidade do uso da música na criação dos momentos. Schubert, Janácek e Schönberg se intercambiam entre diálogos e temas, com uma fluidez notável. Apesar da noite de tempestade no interior do hotel, a evolução dos diálogos evoca lindas imagens das paisagens da Occitania, região do sul de França, berço do gênio de personalidades como o compositor Gabriel Faurè e o escritor Paul Valéry. Uma ótima surpresa na programação de cinema do Eurochannel de hoje.

Sobre a trilha do filme:

  • Sonate in A major, D959“. Composta por Franz Schubert, 1828, parte das “3 Últimas Sonatas” que são consideradas obras-primas
  • Sexteto de Cordas, Opus 4, “La nuit transfigurée” ou “Verklärte Nacht”. Composta por Arnold Schönberg, 1899, em homenagem a uma grande paixão que veio a tornar-se esposa do compositor
  • Quarteto de Cordas #2 “Lettres intimes“. Composta por Leos Janácek, 1928, e considerada uma de suas grandes obras ou “manifesto ao amor”

experimentos da sétima arte: a invenção órfica de cocteau

Muita coisa mudou aqui na sede do LesAmis com o celebrado entendimento entre a central de mídia e a telona. Cinéfila por natureza, as possibilidades de exploração das pérolas da sétima arte se ampliaram alavancadas pela conveniência do streaming via internet: salve a tecnologia digital! 🙂
E para inaugurar  o milagre da acessibilidade, um clássico desde há muito aguardando na lista de desejos: Orphée, de Jean Cocteau, em sua versão original de 1950.
Muitos artigos de qualidade já foram escritos sobre este filme (incluindo este publicado pelo Cifefil – Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos), então vou me ater aqui a compartilhar um pouco do que nele me encanta especialmente.
Em primeiro lugar, a coesão do roteiro, que resolve de forma brilhante a junção de duas diferentes explicações do mito: o Orfeu como visto pela religião oficial grega – portanto, filho de Apolo e Clio – e o Orfeu da genealogia popular – neste caso filho de um nobre (o rei Eagro) com uma musa (Calíope).
É pela lente popular que o mito atravessa os tempos e chega com força estrondoza até nossos dias: o Orfeu composto da mistura entre o olhar do estrangeiro (refletido particularmente na música e poesia, do pai) com o apetite nato pelos mistérios, da mãe, dando origem ao herói situado entre vida e morte, real e sonho, matéria e espírito, sons e silêncio.
Em segundo lugar, a brilhante modernização do mito, sem nunca colocar em risco a contaminação pela visão romântica tardia: no cinema de poesia de Cocteau, a paixão obssessiva de Orfeu tem como alvo a princesa da Morte, e não sua esposa Eurídice. Na versão de Cocteau, Orfeu desce não apenas uma, mas duas vezes ao inferno. Nesta leitura, a princesa da Morte é quem determina o desfecho final, fazendo Orfeu retornar à vida, para sua Eurídice, mas ainda imperfeito, como o homem que nunca deixara de ser – e além disso, proibido de olhar para trás, para sua Eurídice. Ao fazê-lo, conforme crenças da antiguidade, Orfeu simboliza a busca do homem por compreender suas origens, seus porquês. E permanecer preso à sua solidão, à sua “orfandade”.
Uma releitura digna de nota, em alguns aspectos divergentes da versão mais amplamente aceita do mito, mas que em nada o corrompe. Muito pelo contrário, em minha modesta opinião: divergências que em muito enriquecem e humanizam o mito. E que ao lado das soluções técnicas adotadas pelo cinema dos anos 50 para representar o caminho pelas trevas na descida ao Inferno, em nada ficam a dever para a tecnologia de nosso tempo. Recomendado!

Nota: Como era de se esperar, como cidadã do século XXI, senti falta de uma trilha sonora mais presente, reforçando o poder dramático do mito. Nenhuma crítica séria, talvez antes uma limitação ou mesmo resistência a deixar de lado os valores estéticos de nosso tempo… 🙂

licença literária: O Silêncio do Mar

Para quem estiver em casa e tiver acesso ao canal europeu Eurochannel exibe hoje a versão para a telona da obra O Silêncio do Mar, obra do cineasta Jean-Pierre Melville sobre o conto do escritor francês Jean Brulle (pseudônimo Vercors; título original Le Silence de la Mer). Tendo finalizado a leitura deste conto há pouco, particularmente apreciei a coincidência e pretendo não perder o filme! 🙂

Sobre o livro. Curiosamente trata-se de um conto, mas facilmente poderia ter sido um romance. A estória se desenrola ao redor de 3 personagens, que co-existem na França ocupada pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial: um deles é oficial alemão que representa o ocupante, e os outros dois – um tio e sua sobrinha pianista, ambos franceses – prudentes no trato com as tropas de ocupação, mas em momento algum plenamente conformados. O alemão é o único a ter o nome revelado no conto, Werner, enquanto sobrinha e tio são mantidos anônimos pelo escritor, como se simbolizassem a coletividade da França ocupada, o embrião do espírito da resistência.

Me parece especialmente intrigante a relação de amor e ódio que se constrói entre as personagens ao longo do conto. Embora em posição de fazê-lo, o oficial, grande admirador da arte e cultura francesas, evita subjulgar os conquistados. Uma grande estória, vale a pena conhecer.

Serviço: O Silêncio do Mar – Sábado 18/Set às 22:00 no Eurochannel (TVA Canal 95)