Estórias da Música: Beethoven vs. Steibelt

Tendo chegado a Viena no inverno de 1792 para estudar com Joseph Haydn (1732-1809), apesar de sua já ampla produção musical e fama como exímio pianista, Beethoven, como vários outros talentos das artes, precisava fazer certas exibições para se manter relevante na agenda e patronagem da sociedade vienense da época.

Viena, maio de 1800. Costume da época, a alta sociedade se encontrava na casa de um nobre e entre os convidados estavam artistas e principalmente músicos talentosos, tipicamente pianistas. O encontro desta vez foi na casa do Conde Von Fries, e entre os convidados estavam Beethoven e um outro pianista alemão de nascimento e radicado em Paris que, em tour pela capital austríaca, havia proposto que se realizasse naquela data um “desafio técnico” entre ambos pianistas reconhecidos como virtuosos.

O desafiante era Daniel Steibelt (1765-1823), profícuo compositor e aclamado entre os virtuosos pianistas na França – embora igualmente conhecido por sua arrogância, extravagância e desonestidade. Contam os relatos da época, que o desafio foi um fiasco memorável para a história de Steibelt, uma verdadeira humilhação pública, e que este se viu forçado a interromper imediatamente o tour e bater em retirada para Paris. Conta-se ainda que Beethoven, como era próprio de seu estilo, foi brilhante no improviso ao piano, feito com um tema para violoncelo extraído de uma partitura que estava descansando sobre o piano, composta por… Steibelt!

Reino Unido, junho de 2005. Para nosso deleite de apaixonados por música erudita, a BBC produz um documentário dramatizado sobre a vida de Beethoven, dirigido por Simon Cellan Jones e narrado pelo compositor britânico Charles Hazlewood, que na minha modesta opinião, faz um trabalho brilhante. Ponto para ele, que além de compositor e regente, ainda é famoso pela advocacia em favor da difusão democrática da música erudita, para todos os públicos.

O documentário se utiliza de algumas “licenças poéticas”, como se diz, e uma delas acontece na cena do desafio entre os compositores e pianistas na casa do Conde Von Fries: o improviso é feito sobre uma ária dA Flauta Mágica de Mozart – Ein Mädchen oder Weibchen wünscht Papageno sich (algo como Papageno deseja uma moça ou mulher), canção do personagem Papageno.

Bem, mas agora chega de conversa: uma vez contextualizados, vamos à cena! Divirtam-se 🙂

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Conversar, ouvir, ovacionar. Tudo a seu tempo!

Créditos: cartunista Claude Serre.

Já tratamos aqui no LesAmis de um tema que anda permeando discussões nos quatro cantos do mundo ultimamente, a questão da “modernização” de algumas convenções do mundo da música de concerto para tornar o gênero mais atraente para os jovens.

Até me considero uma pessoa aberta para receber e sabatinar novas ideias mas por mais que eu entenda o que está em jogo, realmente não me convenci até o momento que a solução precisa necessariamente passar por liberalidades que possam incomodar a apreciação de uns em detrimento da expressão de outros.

Em publicações europeias tenho lido vários artigos interessantes sobre a matéria. E me chama atenção que as inovações que as salas de concerto vêm experimentando passam por soluções bastante mais moderadas do que tenho visto ser discutido por aqui. Mas então, como diria um grande amigo: por que não me espanto?

A Gramophone de maio passado, por exemplo, traz uma matéria interessante assinada pela jornalista e musicista Rebecca Hutter, que conta como foi sua experiência assistindo um dos concertos da série MusicUpClose cuja proposta é aproximar a audiência dos músicos e do regente, proporcionando a eles oportunidade de conversar sobre as obras, endereçar dúvidas e compartilhar experiências. Em resumo, os concertos desta série têm sessões para ouvir música e sessões para conversar sobre música.

Créditos: cartunista Gary Blehm

Notem que ninguém falou em conversar, aplaudir, ovacionar, etc, durante a execução das obras mas conversar, questionar, testar, compartilhar em momentos específicos entre as execuções. Pode parecer uma diferença pequena mas, acreditem ou não, é o norte da diferença de abordagens de soluções que tenho percebido nas discussões que tenho acompanhado por aqui (Brasil) e por lá (Europa).

Quem está habituado a frequentar ou já esteve pelo menos uma vez num concerto da OSESP na Sala São Paulo, sabe que chegando mais cedo na Sala pode participar do Falando de Música, onde se conversa sobre as obras do programa do dia, peculiaridades, contexto histórico e outras informações de interesse para o público. Particularmente, gosto muito deste serviço.

Note que, ainda que o formato atual do Falando de Música não inclua a presença e interação da audiência com os músicos, já representa um grande diferencial em relação ao formato tradicional da oferta de concertos, que no máximo inclui um programa e notas bem escritas.

Uma outra discussão que me atraiu a atenção foi uma enquete iniciada pelos Jovens Amigos da Filarmônica de Berlin, numa referência a um artigo publicado pelo Huffington Post. A autora defendia que a audiência deveria ser encorajada a aplaudir a qualquer momento como forma de reconhecer um bom desempenho da orquestra, e argumentou que no final do século XIX o público gritava, subia nas cadeiras, e se manifestava livremente, enquanto que hoje os jovens precisam se submeter às regras de etiqueta rígidas impostas desde então nas salas.

Quem ler as respostas da enquete, vai encontrar minha opinião registrada por lá em inglês, e publicada aqui a seguir numa transcrição para o português:

Este assunto é realmente polêmico. Tentei rever minha primeira escolha, mas ainda não consigo me imaginar gostando da experiência difusa de ter pessoas que interagem com a execução a qualquer momento, enquanto ela está se desenvolvendo. Pode-se afirmar que é um comportamento esperado após anos apreciando concertos no formato tradicional. Mas, então, eu não consigo imaginar um melhor ambiente para que os músicos possam se concentrar e interagir – uns com os outros e com público – que não seja pela apreciação silenciosa da audiência. Entendo que isso pode não ajudar a atrair o público mais jovem, mas me pergunto se eles não deveriam ser educados para reconhecer e respeitar as diferenças – apreciar um concerto pode ser individual, mas como público o fazemos compartilhando um ambiente coletivo.

Longe de mim tentar esgotar a discussão. Mas, como comecei afirmando, acredito que a solução deve passar por abordagens mais moderadas, um meio de caminho entre os extremos. E você, o que pensa?

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