licença literária: O Silêncio do Mar

Para quem estiver em casa e tiver acesso ao canal europeu Eurochannel exibe hoje a versão para a telona da obra O Silêncio do Mar, obra do cineasta Jean-Pierre Melville sobre o conto do escritor francês Jean Brulle (pseudônimo Vercors; título original Le Silence de la Mer). Tendo finalizado a leitura deste conto há pouco, particularmente apreciei a coincidência e pretendo não perder o filme! 🙂

Sobre o livro. Curiosamente trata-se de um conto, mas facilmente poderia ter sido um romance. A estória se desenrola ao redor de 3 personagens, que co-existem na França ocupada pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial: um deles é oficial alemão que representa o ocupante, e os outros dois – um tio e sua sobrinha pianista, ambos franceses – prudentes no trato com as tropas de ocupação, mas em momento algum plenamente conformados. O alemão é o único a ter o nome revelado no conto, Werner, enquanto sobrinha e tio são mantidos anônimos pelo escritor, como se simbolizassem a coletividade da França ocupada, o embrião do espírito da resistência.

Me parece especialmente intrigante a relação de amor e ódio que se constrói entre as personagens ao longo do conto. Embora em posição de fazê-lo, o oficial, grande admirador da arte e cultura francesas, evita subjulgar os conquistados. Uma grande estória, vale a pena conhecer.

Serviço: O Silêncio do Mar – Sábado 18/Set às 22:00 no Eurochannel (TVA Canal 95)

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Viva a República das Letras!

[imagem pública] uma representação
para a República das Letras

O excesso de trabalho no território estes tempos tem me afastado um pouco aqui da companhia dos LesAmis, mas sou persistente e aqui estou de volta para compartilhar uma das ideias mais bem batizadas que ouvi ultimamente: a República das Letras.
Expressão cunhada pelo historiador norte-americano Robert Darnton, República das Letras reforça que o conhecimento deve ser público e nunca aprisionado em um produto comercial. Este ponto de vista está relacionado a uma iniciativa anunciada pela Google que pretende digitalizar todas as obras existentes nas bibliotecas públicas dos Estados Unidos. A grande questão, na minha modesta opinião muito bem pontuada por ele, está no fato de que uma iniciativa como esta pode ao mesmo tempo ser algo muito bom e representar uma alavanca importante para a formação de um monopólio digital.
Darnton esteve na primeira mesa de discussões da FLIP de ontem 6/ago, assim como um dos meus autores favoritos Salman Rushdie, que veio falar sobre seu novo livro de literatura fantástica (Luka e o Fogo da Vida), em lançamento aqui no Brasil) e sobre seu novo projeto: um livro sobre o tempo em que teve de se refugiar para não ser morto por causa de seu livro Versos Satânicos.
***
Em tempo, achei bem interessantes algumas das novidades no website da Deutsche Grammophon, entre elas os hotsites dedicados a compositores do ano (Chopin, Mahler) e lançamentos em ópera. Mas fui só eu ou vocês também acharam incipiente demais o nível de interatividade para uma era web 2.0? Também fiquei decepcionada que em 2010, ainda tem empresa lançando conteúdos que só podem ser plenamente explorados com o navegador da microsoft (tentei ouvir minhas playlists com o Chrome, Safari e Firefox, e não consegui) e pior que isso: o internauta nem mesmo consegue dizer isso para o responsável pelo website. Já é um passo importante, mas precisa ser melhor estruturado.

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a comédia grega nossa de cada dia

sempre tive grande admiração e interesse pela cultura grega. muito já li e ouvi, da política à literatura e mitologia, principalmente. esses tempos, vim a conhecer um pouco mais da obra de um dramaturgo grego cujo trabalho desconhecia até então: aristófanes, considerado o pai da comédia antiga.

da coleção publicada pela jorge zahar, me chamou particularmente a atenção o volume III, que traz duas comédias de aristófanes, ambas escritas por volta de 400 a.C., e no entanto, assustadoramente contemporâneas.
numa sociedade dominada pela cultura da guerra, as atenienses lideradas por lisístrata se unem para lutar pelo fim das guerras com a arma que melhor lhes cai: a greve do sexo. simplesmente genial.
em a revolução das mulheres, mais uma investida irreverente: as mulheres devidamente caracterizadas como homens, votam e decidem pela entrega do poder às mulheres, consideradas mais preparadas para exercer tal ofício. o resultado é cômico e mostra de maneira irreverente que fugir dos chamados de sedução do poder não é tarefa fácil. independentemente do sexo do governante.
duas grandes estórias. recomendado!
serviço: A Greve do Sexo (Lisístrata); A Revolução das Mulheres / Aristófanes; tradução do grego e introdução, Mário da Gama Kury. 6a. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006
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mais uma licença literária: o estranho caso do cachorro morto

Dia desses iniciei uma busca por obras que me pudessem ajudar a trilhar meu próprio caminho e formar minha própria opinião sobre a polêmica questão da caracterização de uma obra literária: quando é que um texto deixa de ter interesse pessoal apenas para ter interesse coletivo? Curiosamente, descobri que o entorno das obras classificadas em linguística cobrem numa ponta inúmeros títulos entre manuais de redação e noutra obras filosóficas em semiótica; mas que o meio entre uma coisa e outra é terreno relativamente pouco explorado – ao menos do ponto de vista de obras publicadas.

Seja como for, foi por conta de uma discussão acalorada com um aluno do 4o. ano de linguística numa das livrarias que freqüento na cidade, que vim a me interessar pelo estranho caso do cachorro morto. O livro é um belíssimo romance sobre um garoto autista, Christopher Boone, que escreve um livro de memórias iniciadas a partir de um relato de suas investigações acerca do cachorro encontrado morto no jardim de uma casa vizinha. Brilhante e muito hábil no terreno da matemática e lógica, o menino tem uma limitada capacidade de lidar com pessoas e emoções. O livro, do muitas vezes premiado autor Mark Haddon, tem uma narrativa envolvente, engenhosa, e mexe fundo com o leitor, ao colocá-lo para ver o mundo através dos olhos e da mente de um autista. Deste ponto de vista, é um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Para não falar sobre a marcação de capítulos, numerados conforme a sequência de números primos! <3

Próximo na lista: Rayuela, de Julio Cortazar. Vejamos o que a experiência de um jogo de amarelinha tem para seduzir o leitor… 🙂

Serviço: para quem se interessar pela obra original, o título é: The Curious Incident of the Dog in the Night-Time; Autor: Mark Haddon (britânico); Publicação: 2003; Premiação: Melhor Primeiro Livro, Melhor Romance e Livro do Ano.

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licença literária: Entre Tesouros e Delitos

Introspectivo por natureza, dedicou parte significativa de seu tempo a observar os devaneios do mundo. Nunca se permitiu muito viver o frenesi da vida urbana, da qual admirava mesmo era a vista para o mar. Aprendeu logo a contemplar as coisas além do sabor: do bom café o aroma, da combinação de temperos o caleidoscópio de cores, da intrincada frase ornamentada ao piano a dramaticidade latente das sonatas de Mozart.

Na repartição, era tido em alta conta por quase todos. Homem de poucas embora gentis palavras fez-se notável por sua conduta ética impecável e assertividade na condução de suas atribuições. Desde os primórdios de sua carreira – iniciada naquele mesmo modesto escritório da Procuradoria Pública – muitas coisas haviam mudado na agitada capital da República. Mas ele nunca abriu mão de sentar-se no corredor, de frente para a pequena janela de cujas frestas, ao longe, seus olhos por vezes repousavam sobre o contorno longilíneo do mar.

Nos últimos tempos, dividia seus dias entre o registro de memórias de casos passados e longas conversas despretensiosas com os recém-chegados, para quem ele representava um ícone de famosas atuações. Havia passado seus anos tratando de alguns tipos específicos de casos. Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários. Sobre os leiloeiros dizia não confiar em pessoas cuja idoneidade presumida se fazia avalizar por evidências documentais apenas. “Excesso de senso de oportunidade faz mal à saúde moral”, advertia.

Já sobre os falsários, na cumplicidade de seu íntimo apenas, lançava mão de seu gosto particular pela contemplação. Embora implacável cumpridor de suas obrigações profissionais, se permitia o prazer de admirar a obra de arte, que é o produto de uma falsificação bem feita. A concentração que suporta o treino meticuloso, o capricho no traço, a discrição embutida no espírito de não chamar atenção desnecessariamente – atributos de inegável refinamento estético. Elementos que, para ele, faziam dos falsários experientes seres incomparáveis aos leiloeiros negociadores, meramente movidos pelos dígitos de suas comissões de vendas. “Verdadeiros talentos da arte da imitação… mal intencionados, é fato; mas ainda assim, artistas!”, dizia a si próprio, durante aqueles segundos de luta interna entre sentimentos conflitantes, do apreciador-procurador.

Aterrissado de volta ao caos urbano da República, o ruído seco do carimbo oficial na folha de rosto da petição uma vez mais oferecia denúncia formal a um falsário. Irremediavelmente comprometida estaria a criação de outras obras de comparável pretensa autenticidade pelas mãos daquele cidadão. Sentimento de missão cumprida. Mas com o olhar perdido por entre as frestas da janela, fantasiava que elas, as obras, se salvariam rumando para o orfanato dos tesouros ilegítimos. E se deixava escoltá-las mar adentro por entre as ondas inebriadas, misturadas às linhas de fumaça subindo pelas bordas de sua xícara de café. Mais um dia de trabalho.”

[texto de autoria de Sheila Maceira, originalmente submetido para o concurso literário da revista piauí, edição de junho de 2007, com o título Entre Tesouros e Delitos; frase desafio para encaixe: Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários]

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espaço literário I: dois irmãos

A exemplo de nosso papo sobre as gravuras de goya, aqui estou novamente abrindo um espaço no nosso Les Amis para falar sobre literatura.

Dia desses numa pequena feira do livro avistamos en passant o escritor brasileiro Milton Hatoum. Particularmente, não conhecia nada sobre sua obra, embora o nome me soasse algo familiar. Com interesse crescente, ouvi de um amigo que o conhecia, sobre o fato dele ser um professor de literatura francesa em Manaus, filho de imigrantes libaneses, e autor vencedor de concursos importantes como o Prêmio Jabuti, o maior e mais prestigiado prêmio literário brasileiro.

Algum tempo depois, eis que me chega às mãos, por recomendação leitor aficcionado como eu, o romance dois irmãos, vencedor do Jabuti em 2001. Iniciei então o que se poderia chamar de uma leitura diagonal, despretenciosa, com o intento de experimentar um pouco o livro, originalmente previsto para digamos, entrar na fila de minhas leituras recomendadas. A estrutura narrativa, densidade psicológica das personagens, interpolação entre detalhes que se vão intrincando e revelando aos poucos pelo narrador-personagem sobre o cotidiano da família de libaneses, Zana e Halim, e os filhos, e a empregada e o neto bastardo… junte-se as pinceladas sobre a vida da Manaus das décadas de 60-70, a presença da floresta, dos rios, da seringueira… O que começou como leitura preliminar terminou quando acabou: 198 páginas depois… o conflito entre os irmãos e a história da gênese e dissolução de uma família manauara… romance de primeiríssima linha, digno da agenda de leitura de quem aprecia o gênero e os retratos do Brasil.

Particularmente, gostei muito da edição da Companhia de Bolso. A qualidade gráfica e de impressão já reconhecidas da Companhia das Letras, num preço interessante. Se alguém quiser se aventurar, leitura mais do que recomendada!

alguns prêmios do autor:
Prêmio Jabuti 2006, categoria Romance. “Cinzas do Norte”, 1o. lugar
Prêmio Jabuti 2001, categoria Romance. “Dois Irmãos”
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