Discovering Sound at Belgais

Claudio Abbado, our forever conductor of the Berliner Philharmoniker, referred to the importance of listening and of silence in music. Daniel Barenboim, one of the finest pianists and conductors of our time, also celebrates silence in music:

There are many types of silence. There is a silence before the note, there is a silence at the end and there is a silence in the middle.
— Daniel Barenboim

The celebrated tireless Portuguese pianist, Maria João Pires, once more shares thoughts and feelings about sound and silence. And goes beyond: teaches and shares her personal discoveries of a lifetime, after having dedicated her entire life to the piano. We have already published about her personal thoughts on technique (The Universe of Maria João Pires), and are delighted to now share her Discovering Sound documentary.

A small token of our worship for this incredible artist and human being, a couple of days in advance of her appearance in London (at Cardogan Hall), to bring us a delightful gift: Beethoven’s ultimate Piano Sonata, Op. 111, in C minor. Bravo!

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Estórias da Música: Beethoven vs. Steibelt

Tendo chegado a Viena no inverno de 1792 para estudar com Joseph Haydn (1732-1809), apesar de sua já ampla produção musical e fama como exímio pianista, Beethoven, como vários outros talentos das artes, precisava fazer certas exibições para se manter relevante na agenda e patronagem da sociedade vienense da época.

Viena, maio de 1800. Costume da época, a alta sociedade se encontrava na casa de um nobre e entre os convidados estavam artistas e principalmente músicos talentosos, tipicamente pianistas. O encontro desta vez foi na casa do Conde Von Fries, e entre os convidados estavam Beethoven e um outro pianista alemão de nascimento e radicado em Paris que, em tour pela capital austríaca, havia proposto que se realizasse naquela data um “desafio técnico” entre ambos pianistas reconhecidos como virtuosos.

O desafiante era Daniel Steibelt (1765-1823), profícuo compositor e aclamado entre os virtuosos pianistas na França – embora igualmente conhecido por sua arrogância, extravagância e desonestidade. Contam os relatos da época, que o desafio foi um fiasco memorável para a história de Steibelt, uma verdadeira humilhação pública, e que este se viu forçado a interromper imediatamente o tour e bater em retirada para Paris. Conta-se ainda que Beethoven, como era próprio de seu estilo, foi brilhante no improviso ao piano, feito com um tema para violoncelo extraído de uma partitura que estava descansando sobre o piano, composta por… Steibelt!

Reino Unido, junho de 2005. Para nosso deleite de apaixonados por música erudita, a BBC produz um documentário dramatizado sobre a vida de Beethoven, dirigido por Simon Cellan Jones e narrado pelo compositor britânico Charles Hazlewood, que na minha modesta opinião, faz um trabalho brilhante. Ponto para ele, que além de compositor e regente, ainda é famoso pela advocacia em favor da difusão democrática da música erudita, para todos os públicos.

O documentário se utiliza de algumas “licenças poéticas”, como se diz, e uma delas acontece na cena do desafio entre os compositores e pianistas na casa do Conde Von Fries: o improviso é feito sobre uma ária dA Flauta Mágica de Mozart – Ein Mädchen oder Weibchen wünscht Papageno sich (algo como Papageno deseja uma moça ou mulher), canção do personagem Papageno.

Bem, mas agora chega de conversa: uma vez contextualizados, vamos à cena! Divirtam-se 🙂

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Märchenbuilder

I have been thinking of moving out of Sao Paulo, but then there comes the Piano Recital Series coordinated by the Brazilian Sculpture Museum (“Museu Brasileiro da Escultura”) and surprises me once more. Beautiful initiative, always coming up with an interesting musician and a great repertoire to be tasted. This time a very well known composer – of those we sometimes think that we have already appreciated every piece. And there comes Robert Schumann and his Märchenbilder, Opus 113 (March, 1851).

There are four movements, each of them written after an unique fairy tale. What a lovely dialogue between the piano and the viola! The slow last movement “with melancholy” is specially suggestive of peace and reconciliation, two words that work great with the awaken of the sleeping beauty. Beautiful gift by the hands of Mrs. Liliane Kans (piano) and Mr. Abrahão Saraiva (viola). Perfect sunday afternoon!

Now, better than talking about music is listening, so I offer you here then a youtube version of Schumann’s Märchenbuilder, by the skilful hands of Mr. Sviatoslav Richter (piano) and Mr. Yuri Bashmet (viola). Seat back and enjoy!

 

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Chopin 205!

Nesta data 22 de fevereiro, no ano de 1810 – embora na incerteza da época há quem defenda que foi em 01 de março do mesmo ano – nascia nos arredores de Warsaw, na Polônia, o pianista e compositor Fryderyk Franciszek Chopin, que o mundo conhece por seu nome francês, Frédéric François Chopin. Um dos símbolos máximos do período da música conhecido por Romantismo, talentoso e extremamente reservado, em 18 anos de sua carreira na França, deu cerca de 30 concertos apenas em grandes salas – tímido, preferia o acolhedor ambiente do ambiente de câmara dos salões privados. Permanece um ídolo em sua pátria natal, de onde se mudou aos 21 anos por apoiar o ideal revolucionário contra a política da época, e dá nome ao aeroporto mais importante da Polônia até hoje.

E para celebrar o gênio em seu 205o. aniversário, deixo aqui um recorte do filme “À Noite Sonhamos” – do original em inglês “A Song to Remember“, de 1945 no olhar do diretor húngaro Károly Vidor, com 6 indicações ao Oscar e 1 estatueta ganha por Melhor Filme Estrangeiro. Neste recorte, Chopin chega com seu professor ao escritório do Sr. Pleyel, em Paris, 11 anos após uma correspondência trocada entre eles, onde o professor pedia espaço para apresentar seu aluno talentoso. O Sr. Pleyel logo mostra que não tem mais interesse em Chopin, até que na sala ao lado, ninguém menos do que Franz Liszt, em visita ao mesmo escritório e tendo encontrado uma partitura que considerou interessante aberta sobre o piano, começa a tocá-la a elogiá-la. Endosso feito, nasce uma amizade e a oportunidade de Chopin em Paris.

Vale lembrar que este encontro muito provavelmente não aconteceu desta maneira, uma vez que Liszt era um pianista ligado ao fabricante Érard, então concorrente do fabricante Pleyel. Lembre-se então desta “licença poética” e aproveite a deliciosa cena de suposto encontro entre os dois gênios. Divirta-se!

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Eudoxia de Barros interpreta Kabalevsky

No fim de semana tive o prazer de assistir a um dos muitos concertos da pianista paulista Sra. Eudóxia de Barros, em um dos meus cantos preferidos para ouvir piano na cidade: a sala de recitais do Museu Brasileiro da Escultura, o MuBE. No programa, um extenso colorido de tintas de compositores nacionais, aos quais a pianista dedica sua vida como intérprete, diligentemente na missão de divulgar a brasilidade de suas notas.

Das 11 peças escolhidas para compor o programa do recital, 4 delas lhes foram especialmente dedicadas pelos compositores Ernst Mahle (Tocatina), Sousa Lima (Preludio Nr. 10), Camargo Guarnieri (Estudo Nr. 10) e Antonio Ribeiro (Estudo Nr. 02).

Sua interpretação estivera brilhante e vigorosa, como em minha lembrança de outros recitais dela. Nesta ocasião, fiquei particularmente impressionada com a Sonata Opus 46, Nr. 03, composta em 1946, pelo russo Dimitri Kabalevsky (1904-1987): precisa, colorida, e vigorosa na medida em que a peça o exige. Linda interpretação! Arrancou uma acalorada salva de palmas da plateia atenta, e diga-se de passagem, bastante mais numerosa que minha experiência habitual na série de recitais de piano do MuBE.

Outra surpresa veio no bis: a Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk. Bastante apropriado para a ocasião, um domingo de eleição presidencial no Brasil.

Infelizmente não encontrei no Youtube nenhuma gravação desta grande pianista executando a peça do compositor russo, então para fechar, deixo aqui com vocês uma gravação de 2001, realizada na Universidade do Arizona, com o pianista Joshua Hillmann. Boa audição!

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Daniel Barenboim – A Music Ambassador

For concert music fans, the conductor and pianist Daniel Barenboim is by far one of the most celebrated. Both brilliant musician and a controversial character. Piano player, conductor, music director, professor, writer, and owner of an externes list of awards and recognitions. Born to a jewish-russian family in Argentina, in 1942, he is also well known by being a resolute critic of the Israeli occupation of Palestinian territories.

His music interests me a lot, but I am also specially fan of his writing and thoughts about music and life. When researching another theme, I happened to find out this interview he gave to “The Frost Interview” in 2013. I thought you might be delighted to check it out!

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The Universe of Maria João Pires

pires_maria_joaoShe is the most acclaimed pianist of her country – Portugal. She is actually internationally celebrated! Even though she has recently renounced to her portuguese nationality due to a huge disagreement with the Portuguese government, she will always be the one child with gold fingers at the piano in her homeland – no doubt about this.

Politics and art, such a theme for long hours of unconclusive considerations… and it invariably brings me Fausto! It may be good news then that our Maria João has never given a chance to Mephisto!

But getting back to our post here. Surfing around in search of music pieces played by Maria João Pires in order to help a friend of mine to get started with her musical universe, I just found a very interesting and stimulating documentary named Technique doesn’t exist. Such a challenging title – no doubt I stopped the search to focus on it.

This documentary brings different perspectives on Maria João from different point of views – herself, an student’s (Julien Liebeer), a former producer from BBC Television’s Music and Arts Department (Donald Sturrock). Very knowledgeable and smart people – such a lovely character perception and definitively a must-watch for each and every piano lover.

And to close this post, I will let you reflect on an extract from the documentary – in the words of Maria João herself:

Technique doesn’t exist. The technique is how to use your body in order to produce something you want to do. And this is every moment changing. So, because it is always changing, you can’t consider it a technique. It is an art of using the body. Of course you can see, dancers have a technique, musicians have a technique, but it is our words to explain it because in the end it is not a technique. If you can, the technique is not good anymore. So I think we approach music and we see how can we be the instruments of that.

Ladies and gentlemen, I bring you Technique doesn’t exist. Enjoy!

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Anderszewski: a volta do viajante intranquilo

A agenda de concertos da Temporada 2013 da Sociedade de Cultura Artística é mais uma pérola para a coleção da direção artística impecável que marca as temporadas da casa. Com intérpretes de grande expressão em sua programação, particularmente me encantei com o retorno do pianista polonês Piotr Anderszewski logo mais em julho.

Celebrado também aqui no LesAmis, em outubro de 2010 ganhou espaço num post que escrevi por ocasião da chegada de um dos filmes mais vistos da minha biblioteca particular: o Unquiet Traveler, documentário dirigido pelo francês Bruno Monsaingeon.

Serão dois concertos – 29 e 31 de julho de 2013 – com programa ainda em aberto e ingressos à venda a partir de 1 de julho. Se tiver interesse, um conselho: marque esta data em sua agenda e se programe para fazer a compra o mais rápido possível porque as apresentações dele costumam esgotar logo.

Aproveito aqui ainda a oportunidade para deixar uma preciosidade: um video do Anderszewski executando a peça que o fez notável em primeira mão, as Variações Diabelli de Beethoven (não o incorporo aqui no post porque o conteúdo é restrito para exibição no Youtube).

E aproveito também para compartilhar uma reflexão de Anderszewski sobre Brahms, contida no filme, e que em muito ajuda a entender a personalidade e atitude do próprio pianista polonês. Enjoy!

“The problem with Brahms is that you feel that he is already an interpreter himself – the interpreter of Bach, of Beethoven. Brahms is this purely masculine music, patriarcal. It’s the music of iron resolve, of power of wood. A genious in his own way. It is music written by a young man who is already old. And Brahms remains a citadel, a citadel of classicism, of counterpoint, of precision. All the values that are close to my heart. When you love, you love the weaknesses and is touched by weaknesses. With Brahms there aren’t many weaknesses. In fact, he is a perfect composer. It is that determination to be perfect that bothers me and perhaps I thought a lot about this. The thing that bothers me is that I think I am a bit like that myself.” (Piotr Anderszewski)

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80 anos do pianista Gilberto Tinetti

Muitos já escreveram bons artigos para celebrar o aniversário do mestre pianista Gilberto Tinetti, que neste 2012 completa 80 anos de vida. Justas homenagens lhe tem sido prestadas – Rádio Cultura FM de São Paulo, blogs da mídia musical, e tantos outros – e o LesAmis não poderia deixar passar em branco.

Paulistano de natureza, advogado de formação, pianista, professor e revelador de talentos, dono de uma brilhante e respeitadíssima biografia musical e divulgador do piano no Brasil – a voz e a paixão por trás do “Pianíssimo”, que a Rádio Cultura FM de São Paulo leva ao ar há 25 anos ininterruptos!

Para quem ainda não teve oportunidade de conhecer o trabalho do intérprete, vale explorar um pouco na seção de música de concerto da loja de sua preferência e conferir algumas preciosidades publicadas no youtube. Deixo aqui como presentinho um trecho do Adagio da Sonata Patética de Beethoven, e dA Valsa do Adeus de Chopin, além de alguns depoimentos interessantes do pianista.

Para quem está em São Paulo capital fica a dica para apreciar o recital que ele realizará amanhã 20/Jun no Teatro Cultura Artística de São Paulo, unidade Itaim. No programa, peças conhecidas de Beethoven, Brahms e Debussy. Mais informações no website do Teatro.

Vamos ao teatro?

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retrato de um pianista excepcional: piotr anderszewski, o viajante inquieto

Há tempos planejo dedicar algum tempo para escrever sobre um dos meus ídolos ao piano: o húngaro-polonês Piotr Anderszewski. Aproveito aqui o momento feliz, por ter finalmente recebido meu exemplar do “Unquiet Traveller”: um filme-documentário dirigido pelo cineasta francês Bruno Monsaingeon, conhecido por proezas similares com outros grandes nomes do piano como o canadense Glenn Gould e o ucraniano Sviatoslav Richter.
Tive a felicidade de conhecer o trabalho deste pianista espetacular durante a temporada 2007 da Sociedade de Cultura Artística, em São Paulo. No programa, nada menos do que as Variações Diabelli do compositor alemão (Ludwig van) Beethoven, parte do primeiro CD que Anderszewski gravou como artista exclusivo do selo Virgin, e que já começou no topo: arrebatando os cobiçados prêmios Diapason D’Or e Choc du Monde la Musique.
Creio que este assunto merece algumas linhas mais para que se tenha uma ideia mais clara de sua real importância. Primeiro sobre tema e variações: a submissão de um tema para que sejam compostas transformações – portanto, variações – é uma das práticas mais antigas da música ocidental instrumental erudita. O registro mais antigo desta prática remonta ao período Barroco, quando foram escritas as 30 Variações Goldberg, por (Johann Sebastian) Bach em 1742. Em fins do século XIX, Antonin Diabelli, um compositor e editor austríaco, enviou um tema de uma de suas valsas a 50 compositores, para que fossem criadas variações que seriam publicadas numa antologia austríaca da época (que veio a ser intitulada “Associação Artística Patriótica”). Variações foram escritas por compositores do porte de Liszt, Schubert e Hummel, porém dentre os trabalhos recebidos, foi Beethoven quem marcou a história deste desafio para sempre, com uma proposta experimental revolucionária, embora de dificílima execução técnica. Pois bem, agora melhor contextualizado, dá para entender um pouco mais do que significou para o então totalmente desconhecido jovem Piotr Anderszewski se apresentar para a final da prestigiosa Competição de Piano Leeds International, aos 20 anos de idade, executando nada menos do que as Variações Diabelli.
O recital no Cultura Artística foi para mim absolutamente inesquecível: a intensidade emocional e originalidade de sua interpretação – amplamente reconhecidas pelo público e pela crítica – são daquelas coisas de que os melhores momentos da vida são feitos…
Quanto ao filme, assim como a persona retratada, é absolutamente não convencional. O filme retrata uma jornada de inverno que se inicia na Polônia, passando pela Hungria, Alemanha, Londres, Paris e finalmente Lisboa – onde o pianista escolheu morar mais recentemente. O filme se passa como se o expectador estivesse partilhando da companhia do pianista durante esta jornada, feita boa parte do tempo sobre trilhos – sim, literalmente, de trem. Me parece que uma das escolhas mais interessantes do diretor foi ter abolido o tradicional formato de entrevista – o filme não é um diário de viagem, mas uma coleção de excelentes interpretações de Anderszewski ao piano, entrelaçadas por reflexões absolutamente pessoais que o pianista escolheu revelar sobre si próprio. Uma obra de arte.

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