Anderszewski: a volta do viajante intranquilo

A agenda de concertos da Temporada 2013 da Sociedade de Cultura Artística é mais uma pérola para a coleção da direção artística impecável que marca as temporadas da casa. Com intérpretes de grande expressão em sua programação, particularmente me encantei com o retorno do pianista polonês Piotr Anderszewski logo mais em julho.

Celebrado também aqui no LesAmis, em outubro de 2010 ganhou espaço num post que escrevi por ocasião da chegada de um dos filmes mais vistos da minha biblioteca particular: o Unquiet Traveler, documentário dirigido pelo francês Bruno Monsaingeon.

Serão dois concertos – 29 e 31 de julho de 2013 – com programa ainda em aberto e ingressos à venda a partir de 1 de julho. Se tiver interesse, um conselho: marque esta data em sua agenda e se programe para fazer a compra o mais rápido possível porque as apresentações dele costumam esgotar logo.

Aproveito aqui ainda a oportunidade para deixar uma preciosidade: um video do Anderszewski executando a peça que o fez notável em primeira mão, as Variações Diabelli de Beethoven (não o incorporo aqui no post porque o conteúdo é restrito para exibição no Youtube).

E aproveito também para compartilhar uma reflexão de Anderszewski sobre Brahms, contida no filme, e que em muito ajuda a entender a personalidade e atitude do próprio pianista polonês. Enjoy!

“The problem with Brahms is that you feel that he is already an interpreter himself – the interpreter of Bach, of Beethoven. Brahms is this purely masculine music, patriarcal. It’s the music of iron resolve, of power of wood. A genious in his own way. It is music written by a young man who is already old. And Brahms remains a citadel, a citadel of classicism, of counterpoint, of precision. All the values that are close to my heart. When you love, you love the weaknesses and is touched by weaknesses. With Brahms there aren’t many weaknesses. In fact, he is a perfect composer. It is that determination to be perfect that bothers me and perhaps I thought a lot about this. The thing that bothers me is that I think I am a bit like that myself.” (Piotr Anderszewski)

retrato de um pianista excepcional: piotr anderszewski, o viajante inquieto

Há tempos planejo dedicar algum tempo para escrever sobre um dos meus ídolos ao piano: o húngaro-polonês Piotr Anderszewski. Aproveito aqui o momento feliz, por ter finalmente recebido meu exemplar do “Unquiet Traveller”: um filme-documentário dirigido pelo cineasta francês Bruno Monsaingeon, conhecido por proezas similares com outros grandes nomes do piano como o canadense Glenn Gould e o ucraniano Sviatoslav Richter.
Tive a felicidade de conhecer o trabalho deste pianista espetacular durante a temporada 2007 da Sociedade de Cultura Artística, em São Paulo. No programa, nada menos do que as Variações Diabelli do compositor alemão (Ludwig van) Beethoven, parte do primeiro CD que Anderszewski gravou como artista exclusivo do selo Virgin, e que já começou no topo: arrebatando os cobiçados prêmios Diapason D’Or e Choc du Monde la Musique.
Creio que este assunto merece algumas linhas mais para que se tenha uma ideia mais clara de sua real importância. Primeiro sobre tema e variações: a submissão de um tema para que sejam compostas transformações – portanto, variações – é uma das práticas mais antigas da música ocidental instrumental erudita. O registro mais antigo desta prática remonta ao período Barroco, quando foram escritas as 30 Variações Goldberg, por (Johann Sebastian) Bach em 1742. Em fins do século XIX, Antonin Diabelli, um compositor e editor austríaco, enviou um tema de uma de suas valsas a 50 compositores, para que fossem criadas variações que seriam publicadas numa antologia austríaca da época (que veio a ser intitulada “Associação Artística Patriótica”). Variações foram escritas por compositores do porte de Liszt, Schubert e Hummel, porém dentre os trabalhos recebidos, foi Beethoven quem marcou a história deste desafio para sempre, com uma proposta experimental revolucionária, embora de dificílima execução técnica. Pois bem, agora melhor contextualizado, dá para entender um pouco mais do que significou para o então totalmente desconhecido jovem Piotr Anderszewski se apresentar para a final da prestigiosa Competição de Piano Leeds International, aos 20 anos de idade, executando nada menos do que as Variações Diabelli.
O recital no Cultura Artística foi para mim absolutamente inesquecível: a intensidade emocional e originalidade de sua interpretação – amplamente reconhecidas pelo público e pela crítica – são daquelas coisas de que os melhores momentos da vida são feitos…
Quanto ao filme, assim como a persona retratada, é absolutamente não convencional. O filme retrata uma jornada de inverno que se inicia na Polônia, passando pela Hungria, Alemanha, Londres, Paris e finalmente Lisboa – onde o pianista escolheu morar mais recentemente. O filme se passa como se o expectador estivesse partilhando da companhia do pianista durante esta jornada, feita boa parte do tempo sobre trilhos – sim, literalmente, de trem. Me parece que uma das escolhas mais interessantes do diretor foi ter abolido o tradicional formato de entrevista – o filme não é um diário de viagem, mas uma coleção de excelentes interpretações de Anderszewski ao piano, entrelaçadas por reflexões absolutamente pessoais que o pianista escolheu revelar sobre si próprio. Uma obra de arte.